Para atingir a meta de universalizar o ensino médio em tempo integral até 2026, prazo estabelecido pelo Governo do Estado, a Secretaria da Educação do Ceará (Seduc) tem promovido mudanças na oferta de turmas para o próximo ano letivo. Como resultado desse reordenamento, escolas de ensino médio regular no Estado enfrentam processos de fechamento gradual, com turmas sendo absorvidas por unidades de tempo integral.
Em ao menos duas escolas cearenses, a reorganização tem gerado apreensão entre professores, estudantes e comunidades locais, que denunciam perda de vagas, ausência de diálogo e impactos sociais não considerados na transição para o modelo integral.
Escola histórica em Farias Brito enfrenta encerramento após 79 anos
No município de Farias Brito, na região do Cariri, a Escola de Ensino Médio Getúlio Vargas - considerada um patrimônio cultural da cidade e prestes a completar 79 anos de funcionamento - vive um processo de encerramento progressivo das atividades desde 2023.
Segundo a professora da unidade, Iris Alcântara, a 19º Coordenadoria Regional de Desenvolvimento da Educação (Crede 19), órgão da Seduc que gerencia as escolas estaduais, impediu a abertura de turmas de primeiro ano, fazendo com que cerca de 150 pré-matrículas de alunos deixassem de optar pelo ensino regular.
“O argumento apresentado é a falta de alunos, mas isso não se sustenta na prática”, afirma a docente.
Comunidade contesta justificativa e aponta superlotação em outras unidades
A comunidade denuncia que, enquanto a Getúlio Vargas deixa de ofertar novas turmas, outras escolas da cidade - especialmente as de tempo integral - enfrentam superlotação, com salas que chegam a quase 50 alunos.
A estrutura física da Getúlio Vargas, localizada no Centro do município, é menor e não atende aos critérios exigidos pelo Estado para a ampliação do modelo integral, fator que teria motivado a transferência compulsória dos estudantes para escolas profissionalizantes ou de tempo integral.
Ainda segundo Iris, a comunidade escolar chegou a apresentar uma proposta alternativa: manter turmas reduzidas, com cerca de 35 alunos, distribuídas entre as três escolas existentes no município. A sugestão, no entanto, foi rejeitada pela gestão estadual.
Ensino integral ignora realidades sociais dos estudantes, dizem professores
Para a professora, a imposição do ensino médio em tempo integral desconsidera a diversidade de realidades vividas pelos jovens. “Existem muitos alunos que não é porque eles não querem estudar o dia todo, é porque eles não podem. Tem aqueles que precisam trabalhar para ajudar na renda da família”, ressalta.
Ela cita ainda estudantes que são mães e precisam conciliar os estudos com a maternidade, além de jovens responsáveis pelo cuidado de parentes idosos. “O modelo integral não dialoga com essas realidades”, completa.
Incertezas também atingem profissionais da educação
O processo de fechamento gradual da escola também gera insegurança entre os trabalhadores da educação. Atualmente, a Escola Getúlio Vargas possui 54 funcionários. Destes, 11 são professores efetivos, que devem ser remanejados para unidades de tempo integral.
Já a maior parte do quadro é composta por professores temporários, que temem a perda dos vínculos de trabalho com o encerramento das atividades da escola.
Em Alto Santo, escola também enfrenta redução de oferta
Situação semelhante ocorre na Escola de Ensino Médio Francisco Nonato, no município de Alto Santo, a 221,3 quilômetros de Fortaleza. Com 46 anos de fundação, a unidade foi informada pela 10ª Coordenadoria Regional de Desenvolvimento da Educação (Crede 10) de que não poderá mais ofertar turmas de 1º ano do Ensino Médio no turno da manhã a partir do próximo ano letivo.
Segundo professores da escola, a decisão foi comunicada sem diálogo prévio com a comunidade escolar.
Decisão considerada unilateral por professores
O professor de História Mário José Braga Cruz classifica a medida como unilateral e prejudicial ao funcionamento da unidade. “Foi uma decisão que não passou pelo conselho da escola, não passou pelos professores, pelos estudantes nem pela comunidade escolar”, afirmou.
Fonte: O Povo
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