Um fóssil de um crustáceo que vivia há 115 milhões de anos na região da Bacia do Araripe será repatriado pelo Brasil, com previsão de retorno ao Cariri ainda em 2026, após pesquisadores descobrirem a presença dele em uma coleção nos Estados Unidos.
Nomeada como Cicero spectabilis - junção de alusão ao caririense Padre Cícero e da palavra em latim para “espetacular” -, a espécie irá compor o acervo do Museu de Paleontologia Plácido Cidade Nuvens (MPPCN), ligado à Universidade Regional do Cariri (Urca), ficando disponível para estudo e visitas de pesquisadores, estudantes e população.
Representação de crustáceos Cicero spectabilis se alimentando de um peixe morto no fundo de um lago em ilustração paleoartística de Maurílio Oliveira. Foto: Maurílio Oliveira / Reprodução
Segundo Daniel Lima, professor adjunto de Ciências Biológicas e do Programa de Pós-Graduação em Diversidade Biológica e Recursos Naturais da Urca, o fóssil segue no momento na coleção onde foi “redescoberto” - no Centro de Paleontologia da Universidade de Illinois -, já em “preparação da documentação para o envio seguro do material”.
Repatriação “mais fácil” e menos burocrática
A descoberta do novo crustáceo descrito foi publicada há pouco menos de um mês, em 19 de julho, no periódico Scientific Reports, da revista Nature. O início desse processo se deu em setembro de 2023, como explica o professor.
Foi nessa época que Daniel recebeu o aviso, vindo de um pesquisador e amigo estrangeiro, Arthur Anker, da presença de um fóssil do Cariri em uma coleção em Illinois. Após contato com o responsável, ele foi informado que o material havia sido doado à instituição há anos.
“A partir daí começamos a tratar da possibilidade de repatriação do fóssil, uma vez que na legislação brasileira os fósseis são bens da união, motivo pelo o qual o fóssil se encontrava em condição irregular nos EUA”
Daniel Lima
professor de Ciências Biológicas e do PPG em Diversidade Biológica e Recursos Naturais da Urca
O trato com a equipe estadunidense, destaca Daniel, foi desde o início amigável e aberto à repatriação do exemplar.
“Diferente de como aconteceu com o famoso dinossauro ‘Ubirajara’ e está acontecendo com o Irritator, esse processo está sendo mais fácil, menos burocrático, pois o responsável pela coleção e a instituição aceitaram prontamente a devolução amigável do material, sem a necessidade de envolver as embaixadas, Itamaraty e o Ministério Público”, ressalta.
Estudos sobre Cicero spectabilis podem revelar aspectos da história evolutiva
A partir desse acordo inicial, Daniel e um grupo de pesquisadores - formado por Allysson P. Pinheiro e William Santana, também vinculados ao PPG em Diversidade Biológica e Recursos Naturais da Urca, e ainda Arthur Anker, da Universidade Rei Abdullah de Ciência e Tecnologia, e Sam W. Heads, da Universidade de Illinois - se debruçaram no estudo do material e feitura do artigo até o fim de 2025.
As análises iniciais deram conta de que o Cicero spectabilis se travava, como explica o professor, de uma nova espécie ainda não registrada para a Bacia do Araripe.
O crustáceo, descreve Daniel, era “um animal pequeno, muito parecido com os tatuzinhos-de-jardim” que vivia no fundo do sistema de lagos que existiam naquela região há 115 milhões de anos.
Nesse habitat, a espécie se alimentava de restos de matéria orgânica, tendo grande importância ecológica na cadeia alimentar.
Outro ponto destacado pelo pesquisador diz respeito ao fato da espécie fazer parte de um grupo que, até então, era conhecido exclusivamente no Hemisfério Norte.
O registro no Cariri marca o primeiro do tipo no Hemisfério Sul, dado relevante que “fornece uma importante informação sobre a história evolutiva e grupo e também para o entendimento da distribuição dos organismos durante a fragmentação do antigo supercontinente de Gondwana e de formação do Oceano Atlântico", diz o professor.
O fóssil, explica, já está tombado na coleção do MPPCN. A instituição recebeu recentemente um novo microtomógrafo, um equipamento de imagem que permite análises de objetos em alta resolução de forma não destrutiva.
Com ele, destaca Daniel, será possível submeter o material a novas análises microscópicas e garantir o aprofundamento das informações e estudos sobre o Cicero spectabilis.
A pesquisa publicada pela equipe teve financiamento da Universidade Regional do Cariri, da Fundação Cearense de Apoio ao Desenvolvimento¸ Científico e Tecnológico (Funcap), do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e da Financiadora de Estudos e Projetos (FINEP).
Fonte: Diário do Nordeste
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