Resgatar
a história possibilita compreender percursos e desafios. É pertinente
evidenciar a historicidade da Trocaria como uma das principais ações do
Coletivo Camaradas, na Comunidade do Gesso, no Crato, CE, que remete ao
processo de desenvolvimento e organização comunitária.
A
primeira vez que o Coletivo teve contato com a expressão "Trocaria"
foi em Brasília, durante o "Teia", Encontro Nacional dos Pontos de
Cultura, em 2008, numa ação do Programa de Interferência Ambiental - PIA, que
funcionou como uma espécie de Coletivo/rede de artes visuais, ligado ao
Circuito/Centro Universitário de Cultura e Arte - CUCA, da União Nacional dos
Estudantes – UNE. A atividade era bem simples: consistia numa banca com
os mais diversos produtos, de livros a bugigangas, que eram trocados, e as
trocas eram registradas num livro de ata.
Foi
a partir desta experiência com o PIA/CUCA, da UNE, que surgiu em 2013, a ideia
de realizar a Trocaria na Comunidade do Gesso.
A
ideia apareceu como uma estratégia política de pensar formas de organização, mobilização
e desenvolvimento territorial.
O
troca-troca, como foi apelidado inicialmente pelos moradores, tinha como
propósito fazer com que eles próprios, no decorrer do tempo, assumissem a
ação para si e fossem os protagonistas, e o Coletivo deixasse de ser o ator
principal na ação. Diversas iniciativas foram feitas no sentido de dialogar e
articular com os moradores. Como o Coletivo não tinha sede na
época, as reuniões eram realizadas na ONG Projeto Nova Vida. Percebendo a baixa
participação dos moradores, foi repensada as reuniões para o espaço onde era
realizada a Trocaria, Largo do Gesso, no entanto, a frequência deles continuou
baixa. Ainda foi insistido em "reuniões de calçada", aquela calçada
que tinha mais pessoas era a escolhida, mas também não obtivemos êxito. Houve
uma série de insistências para que os moradores se envolvessem nesta
construção. Paralelamente a esses desafios, a Trocaria vai tomando forma e
ganhando uma dimensão simbólica significativa para o Coletivo Camaradas e a
comunidade.
A
Trocaria já nasceu como algo para além de ser um momento de trocas apenas,
outras atividades foram sendo agregadas a ação, como ações lúdicas,
apresentações artísticas, serviços, distribuição de mudas e reivindicação de
melhorias para a comunidade.
Essa
visibilidade ocorreu por conta do trabalho de envolvimento de diversos
sujeitos sociais e de instituições governamentais, como é o caso de
secretarias municipais, universidades públicas e particulares, além de
coletivos, artistas e intelectuais. Outro fator foi a construção de uma
narrativa que evidenciasse o lugar a partir de suas peculiaridades e potências
criativas. O uso das redes sociais e a produção de materiais para imprensa
serviram para evidenciar esse processo de articulação comunitária.
Foi
a partir destas primeiras tentativas, equívocos e acertos que começamos a
refletir sobre algumas questões, como o processo de ocupações do território e
sua estratificação social, as narrativas externas e internas do lugar, a
construção de novas narrativas a partir do processo de
“desinvisibilização” territorial e apresentação da sua potência criativa,
criação da rede do Território Criativo do Gesso, a Roda de Poesia e
a intervenção urbana Poste Poesia também nasceram como ações que tiveram
início na Trocaria.
A
Trocaria, enquanto feira, era apenas um espaço de trocas e isso nos fez
repensar algumas coisas, dentre elas a falta de participação dos moradores como
pessoas organizadoras da ação e a pouca procura pelas trocas, mesmo tendo uma
periodicidade mensal da ação.
Passamos
por um intervalo de cerca de um ano para refletir sobre a nossa prática e
amadurecer novas possibilidades para Trocaria. Em 2017, começamos a pensar a
Trocaria, a partir de uma feira de sustentabilidade. A expressão sustentabilidade,
nesse contexto, significa a garantia da geração de renda para a manutenção das
ações do Coletivo, dos seus integrantes e dos moradores da comunidade do
Gesso.
Começamos
a usar denominação de “Trocaria – Feira de Sustentabilidade” e se alinhar a
perspectiva de Economia Solidária e a Economia Criativa, sem perder de vista, o
viés político que deu origem a criação da Trocaria, ou seja, estratégia
política de pensar formas de organização, mobilização e desenvolvimento
territorial. Desde o início em 2013, buscamos o apoio metodológico e teórico
das universidades para tentar acertar.
Ainda
temos muito que aprender com dinâmica da realidade concreta, as narrativas e as
subjetividades humanas para pensar os processos de organização comunitária.
Certamente não será uma receita acadêmica ou uma carta de boas intenções que
proporcionarão as mudanças dos lugares, mesmo sendo imprescindível
o arcabouço teórico e as melhores intencionalidades, por isso, é indispensável
conhecer as histórias, as peculiaridades de cada lugar e suas formas de
organização. Esse, talvez, seja o tempero que possa unir o saber elaborado com
a prática social dos indivíduos para gerar novas formas de pensar e de se
organizar com o povo.
Uma
coisa é certa: Chico e Maria daqui sabem o que é mungunzá! Sabem fazer, sabem
comer e sabem vender e esse talvez seja o seu melhor caviar.
Pedagogo
e integrante do Coletivo Camaradas

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