sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Obra inacabada continua fazendo vítimas na BR-222

Viaduto está inacabado e favorece os acidentes, principalmente à noite ( Fotos: Marcelino Júnior )
Tianguá. Há cerca de 12 anos, o caminhoneiro João Lessa trafega pela BR-222 transportando cimento e outras cargas pesadas, entre Recife e Ceará. Um dos pontos que, segundo ele, requer bastante atenção, principalmente à noite, é um trecho da via que corta a cidade de Tianguá, na Serra da Ibiapaba.
O caminhoneiro disse já ter presenciado acidentes fatais, principalmente à noite, quando motoristas que não conhecem o local se deparam com um imenso bloco de concreto armado, que deveria ser um viaduto. "Esse cruzamento, ao deixar a BR e seguir para Viçosa, é um dos mais perigosos que conheço. É fraca a iluminação, e a sinalização não ajuda muito a quem passa por aqui. Vez por outra, acontecem acidentes neste e no outro pedaço de viaduto construído no sentido Tianguá-Fortaleza, que fica na escuridão", revelou.
Um dos trechos mencionados fica no entroncamento de acesso à CE-187, que liga o Município à cidade de Viçosa do Ceará, e possui um imenso bloco de concreto armado, erguido com o objetivo de melhorar o fluxo de veículos. O viaduto inacabado faz parte de uma grande obra de duplicação entre os quilômetros 308 e 312, no perímetro urbano da cidade de maior população da região da Serra, com pouco mais de 68 mil habitantes.
A obra, iniciada em 2011, que sofreu várias paralisações, prometia trazer benefícios aos motoristas com a quadruplicação das vias: duas marginais e duas centrais, no sentido Fortaleza-Teresina e vice-versa, além da construção de dois viadutos e uma passarela. Em setembro de 2012, o governo federal, por meio do Ministério dos Transportes, não havia reajustado, mais uma vez, os valores da construção, fazendo com que a empreiteira responsável pelo serviço de edificação paralisasse o trabalho, abandonando até hoje a construção.
A conclusão da travessia da rodovia BR-222, na cidade de Tianguá, voltou a ser assunto em uma audiência, no fim de agosto, com o ministro dos Transportes, Antônio Carlos Rodrigues. Durante o encontro, articulado pelo deputado Leônidas Cristino (PROS-CE), com deputados e prefeitos de municípios em áreas de influência da BR-222, foram encaminhadas, ainda, medidas para solucionar outros pontos críticos da estrada.
Escândalo
A duplicação da estrada de 6,3 Km que atravessa Tianguá foi iniciada em 2011, pela construtora Delta, que teve contrato rescindido após escândalo em que a empresa se envolveu. Após duas licitações sem concorrência, o projeto parou. O valor previsto é de R$ 43 milhões, incluindo os viadutos.
Conforme acertado com o ministro, o projeto técnico da travessia da BR-222 na área urbana de Tianguá será atualizado e, ainda no fim deste mês, o Ministério deverá apresentá-lo para ser discutido com a prefeitura local, com técnicos do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transporte (Dnit), Secretaria de Infraestrutura do Ceará e do Município, a fim de realizar nova licitação.
Durante a audiência, o prefeito de Tianguá, Jean Azevedo, informou que já perdeu amigos, um cunhado e populares atropelados na BR-222, que atravessa um populoso bairro da cidade. Segundo o prefeito "essa é a primeira vez que eu vejo a discussão desse tema encaminhada numa reunião com o ministro dos Transportes", afirmou.
"Para mim, para o prefeito e para a população, o governo não tem interesse nenhum na conclusão dos viadutos na travessia urbana da cidade de Tianguá. O projeto está largado", disse Leônidas Cristino.
O ministro observou que o projeto de 2009 precisa de atualização e determinou aos seus assessores e ao Dnit para começar, de imediato, os ajustes. Conforme o ministro, as medidas econômicas atingiram também a sua pasta, que suspendeu novas ordens de serviço para concentrar ação nas obras já em execução.
Investimentos
O prefeito de Sobral, Veveu Arruda, ressaltou a importância da retomada e conclusão da obra na Serra da Ibiapaba, e pediu que o Ministério dos Transportes concentrasse os investimentos para o Ceará, na BR-222, que atende a população da região Norte, com 55 municípios e 1,5 milhão de habitantes. "É a estrada que serve para o transporte de toda a produção da região, calçados, cimento, flores, produtos agropecuários, além dos serviços de saúde e educação e das pessoas", afirmou.
Foi recomendado, ainda, pelos representantes do Ceará presentes à reunião, que BR-222 precisa de manutenção permanente para que seja bem conservada, por ser uma importante rodovia na região Norte. No fim do encontro, o ministro anunciou que foi iniciada, em junho deste ano, a manutenção da BR-222, de Sobral à divisa com o Piauí, num trecho de 120 quilômetros.
Segundo levantamento da Polícia Rodoviária Federal, com dados de acidentes, mortes e feridos graves, no trecho urbano de Tianguá, entre os quilômetros 310 e 316, em 2013 foram registrados 25 acidentes com duas mortes e 14 feridos graves; no ano seguinte, o número subiu para 51 acidentes, com quatro mortes e 23 pessoas feridas gravemente; em 2015, já tivemos oito acidentes, com seis pessoas feridas com gravidade, mas nenhuma morte. O registro vai até fevereiro deste ano.
De acordo com a Secretaria de Saúde do Município, os números apontam 28 mortes, no ano passado, e 19 no primeiro semestre deste ano. Mas não especificam em que trecho da BR-222, dentro do perímetro urbano, aconteceram os acidentes. Para a secretária Valdene Vasconcelos, "nós confirmamos, sim, que esses dois trechos que cortam a cidade são perigosos, mesmo não sendo especificados os locais dos acidentes, em nosso levantamento geral. Aguardamos a conclusão dessa obra, que prometia a diminuição no número de acidentes", disse.
Vítimas
Criada em 2007, com objetivo de orientar familiares de vítimas fatais de acidentes naquele trecho, e cobrar das autoridades soluções para o problema, a Associação Tianguaense de Apoio a Familiares e Vítimas do Trânsito, com cerca de cem associados, tenta mobilizar a sociedade no intuito de minimizar o impacto social e emocional que a perdas têm provocado.
Segundo o presidente Edivaldo Aguiar, "nossa maior conquista, até agora, foi a municipalização do nosso trânsito, e a melhoria na sinalização daquele trecho, com a instalação de redutores eletrônicos de velocidade. As vítimas, nesses dois pontos onde se encontram os viadutos, na maioria pedestres e motociclistas, continuam surgindo, principalmente à noite, no local que virou abrigo para caminhões e moradores de rua", disse Edivaldo, que também perdeu dois parentes atropelados no local, em 1990, e um irmão, num choque com outro veículo, em 2007, o que o motivou a criar a associação.
"Ainda é difícil juntar todo mundo. As pessoas se dispersam. Às vezes não querem se expor. Mas continuamos com reuniões, palestras e campanhas educativas para mudar essa realidade", finalizou.

Nenhum comentário:

Postar um comentário