Marcas de vidas secas
12.02.2015
A água que finda marca chão de açude e pele de gente. Tempo ruim cicatriza agricultor para não deixá-lo esquecer que seca tem gosto, cor e cheiro. Os sentidos racham gerações inteiras para que sintam, vivo dentro de si, o sertão-resistência
A seca levou foi tudo: o verde das plantas, o legume das roças, a água do pote. Espalhou-se no sertão feito fogo de fim de mundo, carimbando chão e gente com fome e precisão. Ao agricultor, acostumado a criar família com o suor da luta no sol quente, não sobrou esperança de trabalho. Depois de perder tanto para a terra morta, viu-se rachado. A pele segue marcada até hoje para lembrá-lo da vista acesa para caçar comida entre galhos contorcidos, do gosto adocicado do xique-xique assado, do cheiro forte dos açudes quase vazios, do som de aves bicando a criação morta. Os sentidos estão gravados no corpo de várias gerações, para que o sertanejo não esqueça que sua história é de resistência.
“Hoje tá com três anos de seca. Os açudes já se acabaram tudo. Eu acho que é o final dos tempos né? O povo dizia que o mundo acabou-se a primeira vez com água e agora vai ser com fogo. A gente fica assim pensando: Meu Deus, e o mundo se acaba é assim?”, diz Rita Araújo Vieira, 78. Na localidade de Angicos, em Tauá, ela observa a paisagem secar novamente e lembra o gosto da seca. Houve tempo de inverno que a recordação quis falhar, mas aí a mulher mandou o marido ir no mato e pegar xique-xique pra cozinhar. “Não é ruim, não. A gente tando com fome... Ele fica assim liguentinho, parecendo macaxeira”.
O gosto trazia para diante dos olhos a cena do passado, quando o pai, de cabelos escuros, levava uma reca de oito filhos pela estrada, com uma cabacinha de água quicando da cintura e uma lamparina erguida pela mão direita, para fazer a janta. O trajeto, repleto de alegria e piada do pai, quase contrastava com o tempo seco. Quando encontrava mato bom, ele tirava a casca de espinhos do xique-xique com um facão e organizava o miolo envolto de uma madeirinha no fogareiro improvisado com gravetos. Quando assava, dividia o alimento em cuias para os filhos. Dava tanta sede que as crianças disputavam o gargalo da cabaça de água. Ao final, ele colocava uma trouxinha nas costas com a comida para a mãe e os outros cinco que tinham ficado em casa. Aos meninos saciados só restava dormir um sono profundo até as quatro do dia seguinte, hora de seguir estrada com a mãe até os olhos d’água - cada um com uma cabacinha para carregar água até encher o pote.
A 90 quilômetros dali, Francisco José Vieira come, sentado na porta de casa, um generoso prato de arroz, feijão e porco. Depois de muito tempo sem carne no prato, engordou e abateu o animal para trazer uma semana de fartura à família. O homem de cabelos grisalhos e bigode preto preserva os olhos atentos para o sertão e, embora dê conta de tudo o que acontece, não senta em prosa com vizinho para não ter perigo de sair história de autoria duvidosa. “Dizem que o homem mais acordado que tem no município de Independência sou eu”, orgulha-se. Ele se acostumou a dormir pouco com o trabalho de levar gado até o Piauí em tempo seco. Passava de 20 dias no mundo viajando montado e a pé. Todo dia, quando o relógio marca as quatro da manhã, abre os olhos no susto: “Ah, mas não vou pra canto nenhum não!”. Aposentado do serviço e sem ter o que plantar no quarto ano de seca, ele agora cola a vista na paisagem vermelha e cinza da estrada.
Um pouco mais à frente, é possível enxergar Raimunda Pereira da Silva, 69, sentada em um banquinho de madeira com uma bacia apoiada no colo lavando louça. Desde que casou com José Rodrigues de Morais, 74, para botar 16 filhos no mundo, sente nas mãos a textura do trabalho. Pelejava no serviço que aparecesse para que os meninos não passassem fome. Varria terreiro, lavava louça. Mas, como trabalho que não vem da terra não aparece todo dia no sertão, a fome ainda vinha. A história se finda na timidez de Raimunda, cabeça baixa no rumo do chão. “Não sei conversar não. É melhor ir conversar com o véi, que ele que sabe”.
José Rodrigues tem a testa franzida de preocupação. Do tempo das grandes secas, ele conta das mãos que calejavam carregando piçarro para construir estrada. Trabalhou nas frentes de serviço do governo, dividindo um barraco com mais de vinte homens na semana para, no fim, voltar e deixar o fornecimento com a família em casa. De tanto pingar em barraco com gente que nem conhecia, deixou crescer dentro de si o sonho de possuir a própria casa e se livrar da humilhação que era ser morador em fazenda de patrão, sem poder plantar o quanto queria porque a terra era do outro. Comprou a casinha de taipa em que mora hoje com Raimunda, um filho e dois netos por três mil. Já faz tempo que uma chuva grande derrubou parte do teto de um dos quartos. Nada não, a sala com chão de terra batida ainda tem sofá, estante e televisão. Na cozinha, uma geladeira antiga serve de armário. O tempo de hoje é de posses: para a visita que chega sem avisar ainda tem um conjunto de xícaras com detalhes amarelos para servir café. Só desculpe se o gosto causar estranheza pela água de beber que chega do pipa: “A água vem de longe, chega só o sal”, diz Raimunda.
Cheiro de fé
As águas do açude Realejo, em Crateús, baixaram a 1,51% da capacidade. Como tantos outros açudes do Ceará, ali emergem, nus, tocos, marcadores do volume de água e pedras. Deomar Cardoso, 72, entra no açude primeiro de moto, para só depois adentrar na parte que ainda tem água com a boia de pescar. “Pesco é pra comer. Vivo da roça e tenho o aposento. De qualquer maneira, a gente tem que quebrar o galho por fora porque o aposento não dá pra gente viver né?”, diz. Veio do Piauí para o Ceará no fim dos anos 60, em época de bom tempo, mas o calendário virou a década escondendo notícia de chuva. “Foi a seca maior do mundo que eu passei porque nunca tinha enfrentado”.
Como veio estabelecer a vida, aguentou o sofrimento, conquistou a educação dos filhos e uma moto. Desaprendeu a ficar parado. “Não paro porque meu destino é trabalhar. Não sou homem de pegar uma estrada e fazer caminhada. Eu vou logo pra minha roça, pego a chibanquinha e já tô ali fazendo minha ginástica. Não tomo nenhum comprimido. Como é que eu sou sadio? Porque eu trabalho, porque eu suo. Aí pro caba que tá em casa aparece uma doença, uma preguiça, alguma coisa. No fim, morre é cedo. Eu quero botar pros meus cem anos”. Dos momentos difíceis e da precisão de trabalhar no escuro, perdendo roça porque não chove, restou-lhe o cheiro da fé. Perde legume e volta a brocar porque pensa: “Esse ano é que a roça vai ser grande. Aquela fé lá de cima não perdi ainda não. O Deus que encheu esse açude um dia é o mesmo que ainda tá no céu”.
É o manejo da terra que define os traços de Guilherme Geraldo Dimas, 74. Ele começou a trabalhar na agricultura aos dez anos e nunca deixou o ofício nem Pendência, localidade de Tauá onde chegou ao mundo. “Desde que nasci sou agricultor, nunca deixei de ser não. Toda vida, toda vida”, diz, orgulhoso. Aos dois filhos, coube o destino de ir embora para o Sul. “Aqui não tem emprego, não tem nada. O cara tem que se arrancar”, resigna-se o pai. Mas não demora para o peso da ausência vazar em palavras: “Quando vão, fico chorando”. Guilherme ficou para resistir e findou conseguindo do governo um poço para Pedência num tempo em que a Barragem do Trici, no entorno, sangrava. “Ninguém fez conta. Diziam que a barragem não secava nunca. Mas agora que secou, se não fosse esse poço, tava morrendo bicho de ruma”. O cenário do açude hoje grita melancolia. A dor sai do chão rachado e estaciona logo depois, nos botes de madeira abandonados. Os pescadores entram nas águas baixas para se perder na imensa parede do açude que emergiu. Mesmo sem notícia de multidão morrendo de fome, a seca permanece viva feito fogo. Marca mais os rostos que as terras.
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