No
País conhecido por abrigar o maior número de dentistas no mundo, parte da
população do Ceará ainda sofre com a falta de acesso ao atendimento bucal.
Segundo o Cadastro Nacional dos Estabelecimentos de Saúde (Cnes), o Estado
possui 3.661 cirurgiões-dentistas, em atuação, cadastrados no Conselho Regional
de Odontologia (CRO). O número representa um dentista para cada 2.463
habitantes, cobertura abaixo da recomendada pela Política Nacional da Saúde
Bucal e pela Organização Mundial da Saúde (OMS), que é de um profissional para
1.500 pacientes.
Nas
cidades do interior, a situação é ainda mais grave. Segundo estimativas do CRO,
existem 2.095 cirurgiões-dentistas distribuídos em 140 cidades das
Macrorregiões de Saúde do Ceará (Sobral, Litoral Leste/Jaguaribe, Sertão
Central e Cariri).
Para
o dentista Rodrigo Maia, o número é insuficiente. Segundo ele, longe dos
centros urbanos, “a grande demanda de pacientes e a cobertura insuficiente na
prevenção, somadas à falta de material básico, contribuem para o surgimento de
problemas mais graves”. Diz ainda que “tem PSF (Programa Saúde da Família) que
fica parado mais de um mês por falta de luvas”.
Baixos
salários
Outra
reclamação frequente é o salário médio pago ao profissional no interior. O CRO
estabelece o mínimo de R$ 5 mil, porém, segundo o órgão, “as cidades do
interior carecem de políticas de provimento e remuneração dos profissionais”.
Neste ano, a maioria dos 14 municípios que participaram do Prêmio Nacional do
Conselho Federal de Odontologia de Saúde Bucal foi reprovada no critério de
valor salarial. Segundo o CRO, isso “sinaliza que o valor dos salários é o
principal determinante da falta de fixação dos profissionais no interior”.
A
reportagem tentou contato com a Secretaria da Saúde do Ceará (Sesa) para obter
posicionamento acerca da faixa salarial ofertada aos cirurgiões-dentistas do
interior cearense, mas não obteve resposta até o fechamento.
Perdas
sofridas
A
adolescente Camila (nome fictício) sente na prática a limitação destes
serviços. Aos 14 anos e vivendo em Campanário, distrito de Uruoca, a jovem já
perdeu três dentes permanentes. Sobre os motivos das extrações, ela conta,
tímida, que os dentes “estavam furados”, referindo-se às cáries, problema
causado pelo excesso de ácidos produzidos pelas bactérias da boca.
Não
tratada, além de poder ocasionar a perda do dente, a cárie provoca dor e
dificuldades na hora de mastigar. Os problemas, no entanto, são mais
abrangentes. Camila conta que, por vergonha, seu sorriso foi ficando mais
tímido e cada vez mais raro. “Eu sorrio, mas não como gosto. Me sinto mal por
não poder mostrar os dentes”, relata.
O
psicólogo e professor da Universidade Federal do Ceará, José Olinda Braga,
explica os traumas que podem surgir dessa situação. “Essas pessoas podem
desenvolver fobias sociais, ansiedade, estados depressivos, aparecer o mínimo
possível em público. Vai depender muito da história de cada um”, pontua o
profissional. Isso acontece porque “quase a totalidade do nosso ser está no
rosto”, finaliza.
Tratamento
tardio
Camila
só começou a ir ao dentista em 2016, após sentir “muita dor”. Segundo o
dentista Rodrigo Maia, a demora em procurar o tratamento dificulta a
recuperação. Ele detalha como se dá a deterioração, passo a passo a
deterioração de um dente, até a perda.
“Os
problemas da falta de higiene bucal começam pelo acúmulo de placa dentária, que
leva à formação de cáries, tártaros e a inflamação gengival (gengivite). Isso
tudo, se não tratado, culmina nas perdas dentárias”, relata. Para ele, a
principal e melhor solução ainda é a prevenção.
“Quem
faz limpeza e aplica o flúor, de seis em seis meses, raramente vai ter cárie.
Quem não tem cárie não faz obturação, não precisa de canal, não tem problemas
na gengiva, não perde dente. Quem não perde dente não faz prótese ou implante, então,
a prevenção é tudo. Além de ser mais barato é bem menos doloroso”, observa o
profissional.
Próteses
Quando
os danos avançam a ponto de se tornarem irreversíveis, a única saída é a
utilização de próteses dentárias. Segundo a Secretaria da Saúde do Governo
Federal, o Ceará recebeu, de janeiro a julho deste ano, o repasse de R$ 3,35
milhões para a produção de próteses.
No
cenário dos últimos dez anos, o Estado ofertou um total de 321.391 próteses
dentárias. A média histórica é de 51 por mês, sendo que, no Ceará, de janeiro
de 2017 a julho de 2019, 37 municípios apresentaram valores acima do padrão. Os
cinco primeiros da lista são Abaiara, Acaraú, Aracati, Baturité e Brejo Santo.
Para
suprir a demanda, parcerias entre as Prefeituras e o setor privado fomentam o
tratamento dentário em comunidades mais distantes dos centros urbanos. O
Odontosesc, programa social do Serviço Social do Comércio (Sesc), disponibiliza
atendimento dentário em unidades móveis que visitam, por ano, pelo menos nove
municípios cearenses.
Os
equipamentos ficam por 90 dias nos locais e, além de atendimentos
odontológicos, realizam atividades de educação em saúde. Em 2018, foram
registradas 376 sessões clínicas de escovação e 29.465 consultas odontológicas.
Antônia
Joselena Custódio Franco, 56, foi uma das atendidas pelo projeto. Residente em
Campos Belos, distrito de Canindé, ela fez uma extração e três restaurações, em
agosto, e conta que se sentiu muito confiante com o tratamento. “Eles fizeram
um ótimo trabalho. São ótimos profissionais e nos atendem com muito respeito e
carinho”, relata.
Dayene
Gomes, cirurgiã-dentista do projeto, afirma que a população é beneficiada em
todos os aspectos. “O paciente passa por instrução personalizada com o dentista
para evitar esses problemas, além de receber kits odontológicos com escova,
pasta de dente e fio dental para fazer a higienização em casa”, pontua.
Este
ano, o projeto já está instalado na cidade de Cedro, na Região Centro-Sul do
Estado. A estimativa é de que mais de três mil atendimentos sejam ofertados
durante o período de três meses na cidade. Diário do Nordeste
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