Nos
últimos dois meses, o presidente Jair Bolsonaro (PSL) interferiu diretamente
nos três principais órgãos de combate à corrupção no País, que de alguma forma
cruzaram o caminho de sua família — a Polícia Federal, a Receita Federal e o
Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf). Sempre alegando que quem
manda é ele, Bolsonaro já admitiu que em alguns episódios agiu para defender familiares.
No mais recente,
deixou a PF em estado de alerta. Bolsonaro surpreendeu a corporação ao anunciar
a substituição do superintendente no Rio de Janeiro, Ricardo Saadi, alegando
“questão de produtividade”.
As
investigações mais importantes da PF do Rio envolvem a relação de milícias com
políticos estaduais e a chamada “rachadinha”, prática em que servidores
repassavam parte dos salários aos parlamentares e que atingiu um ex-assessor do
senador Flávio Bolsonaro (PSL-RJ).
Interlocutores
do presidente acusam Saadi de não impedir desmandos nas investigações a Flávio.
No Planalto o delegado é acusado de fazer “corpo mole” e deixar o inquérito
avançar sem provas.
Em
atitude inédita para um presidente, Bolsonaro anunciou que para a vaga de Saadi
iria o delegado Alexandre Saraiva, atual superintendente da PF no Amazonas, um
amigo da família. A tentativa de interferência levou o comando a PF a
encurralar o ministro da Justiça, Sergio Moro, a quem a instituição está
subordinada.
Ao
longo do dia de ontem, Moro foi avisado que perderia o controle da corporação
caso cedesse ao apelo de Bolsonaro. A crise só arrefeceu após o presidente
declarar que aceita nomear o delegado Carlos Henrique Oliveira Sousa,
superintendente da PF em Pernambuco, para a vaga. A reportagem apurou que o
recuo atendeu a um pedido de Moro. No final, o presidente conseguiu o que
queria — tirar Saadi — e Moro ficou bem com a PF.
O
presidente tem a prerrogativa de vetar qualquer nome indicado pela PF para
ocupar cargos de chefia. A escolha, porém, parte do diretor-geral do órgão para
evitar interferência política. O superintendente tem o poder de designar os
delegados que vão tocar as investigações.
Na
Receita Federal, a crise também se agravou depois que o Bolsonaro determinou a
substituição do superintendente do órgão no Rio, Mário Dehon, e dos delegados
da Receita no Porto de Itaguaí (RJ), José Alex Nobrega de Oliveira, e o da
Barra da Tijuca, Fábio Cardoso do Amaral, no rastro de pressão da cúpula do
STF, que foi alvo de investigações.
“Fizeram
uma devassa na vida financeira dos meus familiares do Vale do Ribeira”, disse
Bolsonaro em entrevista na última quinta-feira, 15. A reportagem apurou que um
dos irmãos do presidente, Renato Antonio Bolsonaro, recebeu um aviso de
cobrança da Receita de R$ 1.682. O débito relativo ao e-social de empregada
doméstica já foi regularizado.
Assim
como a PF, a Superintendência da Receita no Rio também apura ilícitos
praticados por milícias em operações no Porto de Itaguaí. O secretário especial
da Receita, Marcos Cintra, sugeriu informalmente que o delegado de Itaguaí
fosse substituído por um nome indicado pela família Bolsonaro. Dehon, que está
com o cargo ameaçado, não aceitou fazer a indicação.
A
troca na PF do Rio ainda não foi efetivada, mas Bolsonaro declarou: “Se tiver
que mudar a Receita Federal no Rio será mudado”. No caso da PF, foi até mais
enfático: “Se ele (Moro) resolveu mudar vai ter que falar comigo. Quem manda
sou eu.” Estadão
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