O presidente Jair Bolsonaro (PSL) tem acumulado
ações como chefe do Poder Executivo que retaliam pessoas ou instituições que
ele considera desafetos políticos por já terem lhe contrariado.
Com a caneta presidencial, que Bolsonaro já exaltou
ter mais poder que a do presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia
(DEM-RJ), a gestão atual exonerou quem se opôs a ele, além de ter adotado
medidas que interferiram em contratos públicos.
Em conversas reservadas, auxiliares do presidente
dizem que as atitudes de Bolsonaro têm sido desmedidas, mas que o temperamento
dele é incontrolável.
Entre os alvos do presidente já estiveram a OAB
(Ordem dos Advogados do Brasil), veículos de imprensa, integrantes do governo
que discordaram dele e até um fiscal do Ibama de quem recebeu uma multa por
pesca irregular há sete anos.
A Constituição Federal prevê o princípio da
impessoalidade do agente público, ou seja, que ele não pode beneficiar ou
prejudicar alguém só porque esse alguém é seu amigo ou inimigo.
Na última terça-feira (6), Bolsonaro publicou
medida provisória que retirou dos veículos de comunicação impressos a
prerrogativa de publicar balanços financeiros.
Apesar de negar se tratar de vingança contra a
imprensa, que ele tem tratado como inimiga desde o início do mandato, o
presidente sinalizou o objetivo de retaliação.
Em discurso na capital paulista, ele lembrou que o
jornal Valor Econômico, que, dedicado à cobertura econômica, recebe um volume
maior de balanços das empresas, já o criticou no passado.
"Eu espero que o Valor Econômico sobreviva à
medida provisória. Espero. Vamos fazer esse tipo de política? O Valor me
entrevistou por duas vezes durante a pré-campanha. A segunda manchete era:
'Bolsonaro tem a política econômica idêntica à da Dilma Rousseff". Pelo
amor de Deus. Eu não sou o Dilmo de calça comprida", disse.
No final de julho, Bolsonaro criticou a OAB, disse
saber como o pai do presidente da entidade, Felipe Santa Cruz, desapareceu
durante a ditadura militar e afirmou que poderia contar a ele.
Também na terça, a Petrobras, ligada ao governo,
enviou carta a Santa Cruz comunicando o cancelando de um contrato que mantinha
com ele em causas trabalhistas.
A provocação inicial de Bolsonaro ocorreu após o
presidente ter se irritado com a postura da OAB nas investigações sobre a
facada da qual foi ele vítima durante a campanha eleitoral.
"Eu havia falado já, nem era para ter esse
contrato. Não é porque era ele, é porque a Petrobras não precisa disso: dar
dinheiro para um cara da OAB que recebe recursos bilionários e não é auditado
por ninguém", justificou depois.
No mesmo episódio, Bolsonaro defendeu a revisão dos
contratos de publicidade da Petrobras, que se trata de uma empresa com ações
negociadas na Bolsa de Valores e com participação de acionistas privados.
A mesma ingerência foi feita pelo presidente também
no Banco do Brasil. Em abril, ele pediu ao dirigente da instituição financeira,
Rubem Novaes, que demitisse o diretor de publicidade e retirasse do ar uma
propaganda.
A retaliação do presidente também recaiu, na semana
passada, sobre o então diretor do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas
Espaciais), Ricardo Galvão, demitido após divulgar dados sobre o aumento do
desmatamento na floresta amazônica.
O presidente queria que as informações tivessem
sido discutidas previamente com o governo federal, evitando, como ele mesmo
disse, que elas afetassem a imagem do país no exterior.
"Se quebrar a confiança, vai ser demitido
sumariamente. Perdeu a confiança, no meu entender, isso é uma pena
capital", disse Bolsonaro um dia antes do anúncio da exoneração do
diretor.
O governo do presidente também afastou, no início
do ano, um fiscal do Ibama (Instituto Brasileiro de Meio Ambiente) que havia
multado Bolsonaro em 2012 por pescar em área de proteção ambiental, no Rio de
Janeiro.
Ele tem defendido, inclusive, que a Estação Ecológica
de Tamoios, onde foi multado, deixe de ser uma estação ecológica e se torne um
destino turístico no país, virando uma espécie de Cancún do Brasil.
Para o ex-presidente da Comissão de Ética da
Presidência da República Mauro Menezes, a questão sobre o princípio da
impessoalidade do agente público é um "ponto crítico" da atual
gestão.
Ele ressalta que os mecanismos de governança devem
ser usados de maneira "isenta", "prudente" e
ponderada", sem transbordar para uma apropriação do público por interesse
político ou pessoal.
"É uma característica do atual governo
desafiar e ignorar determinadas garantias essenciais do regime republicano. O
republicanismo está seriamente em crise e o governo tende a naturalizar o
apossamento dos mecanismos públicos para a implementação de determinadas
vontades partidárias, ideológicas ou pessoais", disse.
O cientista político Creomar de Souza, professor de
relações governamentais do Mackenzie em Brasília, avalia que a postura de
confronto adotada pelo presidente faz parte de uma estratégia política.
"O efeito dessa narrativa é fazer com que,
durante todo o tempo, as pessoas discutam o acessório, e não assuntos
principais, como o desemprego, por exemplo", disse. Folhapress
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