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César
Lucas, do 3° ano do Ensino Médio,
questiona condições para alunos escolherem
itinerário formativo. (Foto: ALEX GOMES)
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Após
três anos e meio de discussões sobre o assunto, a Base Nacional Comum
Curricular (BNCC), que trará mudanças estruturais para o Ensino Médio, foi
aprovada na última terça-feira, 4. Entre as alterações, a BNCC inclui
itinerários formativos, que serão escolhidos pelos alunos a depender de suas
preferências com relação à área de estudo, e coloca apenas as disciplinas de
português e matemática como obrigatórias durante os três anos do Ensino Médio,
podendo os outros conteúdos serem administrados como disciplinas ou não ao
longo do período, a depender do currículo formulado por cada escola.
A
BNCC institui que o estudante poderá escolher uma das áreas entre Matemáticas e
suas Tecnologias, Linguagens e suas Tecnologias, Ciências da Natureza e suas
Tecnologias e Ciências Humanas e Sociais Aplicadas para se aprofundar durante o
Ensino Médio, ficando os outros conteúdos em segundo plano. O documento ainda
está sob revisão e deverá ser submetido ao Ministério da Educação para ser
homologado. As escolas terão dois anos para se adaptar e construir os
currículos letivos após a homologação e a mudança deve começar a valer a partir
de 2022.
A
estrutura dos currículos será definida pelas redes de ensino e pelas escolas
públicas e particulares, que podem optar por desenvolver as competências e
habilidades previstas na BNCC por disciplinas, por temas interdisciplinares,
por projetos ou outras formas de organização que considerem mais adequadas. Não
haverá apenas um único modelo, como ocorre hoje. O Ministério da Educação (MEC)
afirma que a aprovação da BNCC "é o caminho para um ensino médio flexível,
com disciplinas integradas e que preza pela formação integral do
estudante". Alguns especialistas, porém, consideram que isso é um
"retrocesso" e que a alteração trará prejuízos para a formação dos
estudantes.
Para
o professor adjunto da Faculdade de Educação, Ciências e Letras do Sertão
Central da Universidade Estadual do Ceará (Feclesc-Uece) Deribaldo Santos, quem
será prejudicado com a mudança serão principalmente os alunos de escolas
públicas. Ele cita que o principal problema da educação não é o currículo em
si, mas a falta de estrutura. "Nas escolas de Quixadá os banheiros não tem
porta, não há estrutura para isso. Querem mascarar todos os problemas
estruturais no currículo, um problema que não é curricular", afirma.
"Não
tem nada de integral, não tem nada de flexível, é um retrocesso gigante que
estamos passando", considera. Segundo Deribaldo, para uma escola ser
considerada integral, deve articular a capacidade intelectual da pessoa,
trabalhar sobre a matéria social e dar capacidade para o aluno entender como o
mundo é. Para ele, nada disso acontece atualmente. "Há uma diferença entre
reforma e contrarreforma. O que tá acontecendo no ensino médio é uma
contrarreforma, é algo negativo", diz.
O
presidente do Fórum Nacional de Coordenadores Institucionais do Programa
Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência (Forpibid) e professor da Uece,
Nilson Cardoso, critica que o aluno tenha que escolher, ainda no primeiro ano,
"o rumo da sua vida", devido aos itinerários formativos. "Ele [estudante]
vai ter uma quantidade de formação mais restrita em relação a todos os outros
conhecimentos, se ele entender que vai ter mais afinidade com outra área
depois, ele vai ter que refazer o itinerário", argumenta.
Nilson
Cardoso também aponta que conteúdos serão deixados de lado devido à reforma, o
que considera uma grande perda. "Se eu vou ter um direcionamento de
conhecimento muito cedo eu acho que vai ser muito prejudicial, vamos ter alunos
cada vez mais preparados para o mercado de trabalho e menos provocados a
refletir sobre a sociedade e sobre as coisas que o rodeiam", lamenta.
Por
meio de sua assessoria, o MEC esclareceu que a BNCC não retira nenhum conteúdo
do atual Ensino Médio. "A BNCC do ensino médio está estruturada por áreas
do conhecimento e contempla competências específicas e habilidades de todos os
componentes curriculares. As áreas do conhecimento relacionadas na BNCC
consideram os conteúdos de todas as disciplinas do atual Ensino Médio",
informou.
"A
reforma do ensino médio é crucial para enfrentar o engessamento do currículo. A
flexibilização curricular é essencial para atender às demandas e necessidades
dos jovens e melhorar a qualidade do ensino. Com a homologação da BNCC do
ensino médio, as secretarias de educação, as escolas públicas e privadas
poderão testar novos modelos. Não haverá apenas um único modelo, como ocorre
hoje", também declarou, em nota. Ao ser questionada sobre pontos positivos
da aprovação da BNCC, a assessoria respondeu que "como é uma proposta do
MEC, é tudo". O Povo

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