domingo, 4 de março de 2018

Distintos riscos podem comprometer uso das águas de quatro aquíferos




No aquífero Dunas, entre Pecém e Paracuru há grande quantidade de água de boa qualidade. O que compromete a sua integridade é a impermeabilização de áreas naturais, com o avanço das construções irregulares ( Foto: Natinho Rodrigues )
De acordo com as informações da Cogerh, no aquífero da Chapada do Araripe (Cariri) a presença de coliformes está diretamente atrelada aos baixos índices de saneamento ( Foto: Elizângela Santos )
Fortaleza. Cada vez mais cogitado como possível alternativa de abastecimento diante do avanço da estiagem que por seis anos consecutivos afeta o Ceará, o uso da água subterrânea requer atenção. Os aquíferos, localizados em áreas sedimentares, que representam cerca de 15% do território estadual, embora tenham em comum a alta capacidade de armazenamento de água, segundo a Companhia de Gestão dos Recursos Hídricos (Cogerh), têm características específicas e formas diferentes de recomposição de reservas. O uso desse recurso, que na região do Cariri abastece cerca de 600 mil pessoas, para ser sustentável, conforme a Cogerh, requer cautela, pois os quatro grandes aquíferos do Ceará sofrem variados tipos de interferências.
No Ceará, 85% dos territórios são formados por rochas cristalinas que não são favoráveis ao acúmulo de água. Nestas regiões, a quantidade de água subterrânea, em geral, é restrita. Já nas manchas sedimentares, onde o solo é espesso, com características porosas e permeáveis capazes de reter e ceder água, o recurso é abundante.
As áreas sedimentares margeiam o Estado e quatro regiões acumulam grande volume de águas subterrâneas: Chapada do Araripe (Cariri), Serra da Ibiapaba (Aquífero Serra Grande), Chapada do Apodi (Aquífero Potiguar) e faixa litorânea (Aquífero Barreiras/Dunas).
Diferenças
As zonas sedimentares, explica a gerente de estudos e projetos da Cogerh, Zulene Almada, embora possuam características semelhantes, têm variações na forma de renovação da água. Conforme suas informações, o aquífero Dunas, por exemplo, possui areias selecionadas que permitem uma reposição imediata. Portanto, se chover, a recarga na área é dada como certa. "Em outros casos a água subterrânea demora a se renovar e ainda está em contato permanente com a rocha. Não tem circulação. A renovação é lenta", afirma.
A exploração dos aquíferos, ressalta Zulene, tem como prerrogativa a realização de estudos do volume armazenado e das condições climáticas e geológicas de reposição das águas. Segundo a Cogerh, nos últimos oito anos, foram realizados pelo menos oito estudos (de perfis e finalidade distintas) nas quatro regiões. As pesquisas incluem a análise de potencialidades dos aquíferos e servem para "quantificar" as reservas.
Com o monitoramento anual das reservas renováveis, a Cogerh tem conhecimento da resposta hidrológica desses reservatórios. Esse acompanhamento subsidia as decisões de outorga de exploração das águas. De acordo com Zulene, por ser o maior, o aquífero da Chapada do Araripe (Cariri) é o que concentra o maior número de estudos. O primeiro passo nesses estudos, explica, é o mapeamento dos poços profundos já existentes nas localidades. Nesta semana, a Cogerh anunciou que um trabalho desse tipo será iniciado na Vila de Jericoacoara. É o início da pesquisa que irá detalhar a real dimensão do aquífero dunas nessa região.
Além dos levantamentos hidrogeológicos, a Cogerh também realiza pesquisas hidroquímicas, que verificam a qualidade da água. Com a ênfase dada a essa alternativa de abastecimento nos últimos períodos de seca, são essas condições que requerem atenção para garantir sustentabilidade a esse recurso.
Interferências
Nos quatro grandes aquíferos, as interferências são de distintas ordens. Da identificação de traços de metais pesados no aquífero Serra Grande às substâncias com presença de coliformes totais e fecais no aquífero da Chapada do Araripe. "Não há uma condição comum que preocupe. São condições diferentes que afetam o uso desses recursos nessas áreas", reforça Zulene.
De acordo com a representante da Cogerh, no Cariri a presença de coliformes está diretamente atrelada aos baixos índices de saneamento. "As pessoas não fazem a ligação de esgoto e isso pode comprometer a qualidade da água. "É necessário que as pessoas entendam a importância de saneamento", acrescenta. Outro fator problemático na área, segundo ela, é o consumo excessivo da água subterrânea.
Na Chapada do Apodi, estudos qualitativos de 2011 pela Cogerh identificaram poços com agroquímicos. A situação deve ser acompanhada na região, que vale-se da água subterrânea, sobretudo, para a irrigação.
No aquífero Dunas, Zulene garante que entre as regiões do Pecém e Paracuru há grande quantidade de água, que é de boa qualidade. A interferência, que de forma generalizada compromete a integridade dos reservatórios nesse aquífero, é a impermeabilização de áreas naturais, com o avanço das construções irregulares nas dunas.
Na avaliação do geólogo e professor do Programa de Pós-Graduação em Geologia da Universidade Federal do Ceará (UFC), Mariano Gomes Castelo Branco, levando em consideração a necessidade que a exploração dessas águas deve ser precedida pela prospecção, dentre outras, geofísica, geológica, de imagem, há uma certa desordem técnica, científica, de planejamento, de ordenamento/gerenciamento e de desperdício econômico.
Em relação aos órgãos ambientais responsáveis por outorgar e fiscalizar a prospecção de águas subterrâneas, o professor analisa que há graves problemas, como, por exemplo, a carência de outorga e de fiscalização em todos os níveis. Para o geólogo, a rede hídrica do Brasil não tem recebido a devida atenção e isto reflete-se em um gerenciamento inadequado.

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