Como o senhor recebeu a nomeação para bispo coadjutor e para assumir o ministério pastoral na Diocese de Crato?
O bispo coadjutor é nomeado para ajudar e substituir o bispo diocesano no exercício das suas funções com direito a sucessão. Vagando a Sé Episcopal, o bispo coadjutor torna-se imediatamente bispo diocesano. Dava expediente na Cúria Diocesana de Imperatriz (MA) quando recebi o comunicado de minha nomeação para a Diocese de Crato. Sempre surpreende, mesmo porque a notícia causava uma situação totalmente nova em minha vida. A Diocese de Crato, até então, não era por mim conhecida. Outro regional, outra realidade, tudo isso me preocupava. Mas a graça de Deus é maior. Ele nos conduz para fazer o que Ele quer.
Desde que foi anunciado como coadjutor, em maio, passou a estudar e tentar conhecer mais a região do Cariri?
É indispensável que se tenha um mínimo de informação do novo campo de trabalho. Tão logo foi confirmada minha aceitação, comecei a estudar e a conhecer a nova diocese. Muito me ajudaram as informações e dados que me foram repassados por dom Fernando Panico.
O Cariri tem forte laço com a religião. São milhões de romeiros que visitam, sobretudo, Juazeiro do Norte, todos os anos. Como o senhor analisa essa ligação entre os romeiros e a Igreja Católica?
O Cariri continua se destacando no cenário cultural do Nordeste pelas romarias, os festejos religiosos, as manifestações da tradição popular, os folguedos, os poetas e cantadores. Os romeiros e romeiras, homens e mulheres de Deus, conservam a memória da religiosidade do seu povo. São todos filhos e filhas da Igreja Católica. Plasmou-se nestas terras uma cultura profundamente católica. Aqui nasceram e viveram pessoas boas e santas, que representam para nós ícones de caridade e serviço ao próximo, a exemplo do Padre Cícero, da menina Benigna Cardoso da Silva, do Padre Ibiapina e de tantos outros, cuja existência, mesmo no anonimato, representa bênçãos e nos animam a enfrentar as adversidades.
Como o senhor analisa a reconciliação da Igreja Católica com Padre Cícero?
O secretário de Estado do Vaticano, Cardeal Pietro Parolin, escrevendo a Dom Fernand que "... É sempre possível, com a distância do tempo e o evoluir das diversas circunstâncias, reavaliar e apreciar as várias dimensões que marcaram a ação do Padre Cícero como sacerdote e, deixando à margem os pontos mais controversos, por em evidência aspectos positivos de sua vida e figura, tal como é atualmente percebida pelos fiéis". Nesse sentido, penso que devemos, como também pede a carta, ressaltar os bons frutos que hoje podem ser vivenciados pelos inúmeros romeiros que, sem cessar, peregrinam a Juazeiro atraídos pela figura daquele sacerdote. Procedendo desta forma, pode-se perceber que a memória do Padre Cícero mantém, no conjunto de boa parte do catolicismo deste País, e, dessa forma, valorizá-la desde um ponto de vista eminentemente pastoral e religioso, como um instrumento de evangelização popular.
Quais são suas expectativas à frente da Diocese do Crato?
Ao longo dos seus 102 anos de existência, a Diocese foi administrada por cinco pastores, cujos nomes cito e reverencio com respeito e elevada gratidão. A dom Quintino, dom Francisco, dom Vicente, dom Newton e dom Fernando, o nosso reconhecimento e agradecimento pelo generoso labor pastoral que eles nos doaram e pelos seus testemunhos de fé sólida, de piedade e de zelo, demonstrados no exercício do múnus episcopal. Minha expectativa é de sempre responder o chamado do Mestre e Senhor Jesus que nos faz, para estar com Ele, conviver e se deixar renascer n'Ele e por Ele ser enviado à missão, para que "venha o teu reino. Para isso contarei com a importante colaboração dos padres, diáconos permanentes, religiosos e religiosas, leigos e leigas engajados nas diversas pastorais.
O papa Francisco faz declarações de acolhimento e união dos povos em prol de um mundo mais igualitário. Em sua posse, o senhor fez discurso semelhante. É uma característica do senhor ou é um direcionamento da Igreja?
O Papa Francisco tem sido uma bênção de Deus para toda Igreja. Com simplicidade e humildade, vive o que prega. Anuncia porque primeiro experimentou. É um sinal, testemunho para todos nós. Tem realizado profundas reformas na Igreja, e tem aproximado as pessoas como também tem resgatado várias das ovelhas que se distanciaram do rebanho. Somos convidados a seguí-lo. Seguindo-o, estaremos mais próximos do Mestre Jesus.
*Bispo diocesano do Crato
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