Os relatos das próprias crianças sobre o território e a realidade em que vivem são a matéria-prima do livro "Terra de cabinha", com textos da jornalista Gabriela Romeu e imagens do fotógrafo Samuel Macedo.
O livro é um dos produtos do projeto Infâncias, que percorre diferentes cidades do interior do Brasil com o propósito de pesquisar e compreender a vida das crianças para além dos centros urbanos. "A gente conhece pouco da vida das crianças, e o Infâncias nasceu com o objetivo de tratar desta realidade, de fazer conexões entre diferentes lugares e se aproximar dessas crianças, porque entendemos que o desconhecido gera preconceitos", explica Gabriela.
Assim, o projeto tem buscado desvelar a vida de crianças ribeirinhas, indígenas, quilombolas, rurais. "Todas são crianças, e tem vários aspectos universais que traduzem essa infância, mas os territórios em que elas estão dão possibilidades diferentes para entendermos o que é ser criança", diz Gabriela. Segundo ela, os locais escolhidos para a pesquisa estão relacionados à própria memória afetiva da equipe.
Já foram exploradas cidades de Minas Gerais, além do Cariri cearense e da comunidade de Xingu, em Belo Monte. "A gente tem sempre uma abordagem prévia junto com as lideranças locais, e a primeira coisa é a comunidade querer que a gente dialogue com ela. A gente convive com as crianças no lugar delas durante um tempo, mas os pais precisam se sentir seguros com a nossa presença", conta Gabriela.
Metodologia
A autora ressalta a necessidade de uma abordagem cuidadosa, uma forma de evitar o olhar exótico sem deixar de perceber-se como estrangeiro no ambiente da pesquisa. "Temos o desejo de nos aproximar e nos conectar, dividindo as histórias, convivendo. Esse trabalho, Infâncias, esta inserido em uma metodologia da escuta", diz, acrescentando que os pesquisadores se colocam em condição de aprendiz frente às crianças, permitindo serem conduzidos por elas.
Documentário
Quase uma dezena de viagens pelo Cariri rendeu ao projeto não apenas o livro "Terra de cabinha", mas também o documentário "Meninos e Reis", sobre a infância e o reisado na região. "O reisado é uma brincadeira que fascinava as crianças, percebi isso desde o início, quando cheguei. Quando fomos filmar - a gente já conhecia alguns grupos de reisado por conta do fotógrafo Samuel Macedo, que viveu na Fundação Casa Grande, em Nova Olinda -, identificamos crianças que eram personagens, que tinham histórias para contar", diz Gabriela.
O curta-metragem está centrado em Maria, uma criança de dez anos que estava encerrando sua função de rainha. "As rainhas começam pequenas, mas quando viram mocinhas, passam a coroa para uma nova rainha. A gente descobriu ali que a historia do 'Meninos e Reis' era uma história de passagem, de transição. A coroa simbolizava a própria infância dela. O filme traz esse drama da Maria e, paralelamente, vai construindo a história de outras crianças que participam do reisado", afirma Gabriela Romeu.
Se o documentário fala da infância como uma espécie de nobreza por meio da participação das crianças no reisado, o livro "Terra de cabinhas" procura trazer um retrato mais amplo do Cariri. "É um pequeno inventário da vida dos meninos do sertão", define Gabriela. A obra reúne brincadeiras, tradições, causos e as chamadas "encantarias" da infância. "As encantarias são todos os aspectos entre o real e o fantástico que estão relacionados ao crescer do menino no lugar", explica a autora.
A obra inclui as tradições do reisado e dos caretas, além das lendas da caboclinha e das brincadeiras que vão das vaquejadas com pneus em vez de bois às caças de jumentos. "Durante a pesquisa, vi meninos grandes brincando. A gente vê aí uma infância estendida. Costumamos dizer que, em geral, a infância vem sendo encolhida por conta de várias precocidades. Crianças de dez anos já se dizem pré-adolescentes. Mas, ao contrário disso, em muitos lugares do interior, vemos essa infância estendida, como acontece com os meninos grandes no caso das vaquejadinhas", diz Gabriela.
"Terra de cabinha" faz um apanhado da vida de crianças nas regiões mais rurais do Cariri. Para a pesquisa que resultou na obra, a jornalista percorreu as cidades de Juazeiro do Norte, Crato, Nova Olinda, Potengi, Jardins e Santana do Cariri. Foram quase uma dezena de viagens, com uma média de duas semanas de duração cada uma, para tentar compor um retrato da região com os relatos das crianças. "É o nosso olhar sobre um Cariri encantado, mágico, mitológico", resume Gabriela.
A pesquisa reúne diferentes elementos do universo infantil caririense, passando pela forma como as mães cuidam dos filhos e da relação das crianças com o território. "Com isso, a gente vai compondo este inventário do que é ser menino no Interior. Há aspectos que se repetem em diferentes regiões do Brasil, mas o Cariri me deixa a infância das encantarias, que está entre o real e o fantástico", afirma Gabriela.
LIVRO
Terra de Cabinha
Gabriela Romeu
Editora Peirópolis
2016, 96 páginas
R$ 52
Mais informações:
Acesse vídeos, imagens e outros materiais do projeto Infâncias em www.Projetoinfancias.Com.Br
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