segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Escândalos agravam crise de credibilidade dos partidos

Os presidentes do Senado, Renan Calheiros, e da Câmara, Eduardo Cunha, são citados por delatores da Operação Lava-Jato ( FOTO: Lula Marques/ Agência PT )
Denúncias de corrupção contra lideranças do primeiro escalão do Governo Federal e do Poder Legislativo, prisão de parlamentares e desconfiança generalizada contra partidos políticos são alguns dos resultados do imponderável cenário político do País em 2015. A expectativa é que as surpresas e desgastes políticos não se encerrem com o ano que passou. Cientistas políticos citam problemas que parlamentares e gestores devem enfrentar neste ano por conta da falta de credibilidade de que gozam.
O ano de 2015 terminou com processo de impeachment em aberto contra a presidente Dilma Rousseff e outro processo que analisa pedido de cassação contra o presidente da Câmara Federal, Eduardo Cunha (PMDB-RJ). A Operação Lava-Jato, que investiga desvios de recursos na Petrobras, já motivou a prisão de empresários, doleiros, banqueiros e do líder do Governo no Senado, Delcídio do Amaral.
Na opinião de cientistas políticos, o PT é o partido que mais sai com a imagem arranhada, uma vez que a maioria dos escândalos divulgados ocorreram durante os 13 anos em que a legenda comandou o Palácio do Planalto. Outros partidos tradicionais, entretanto, não passam ilesos da pecha da corrupção. O ex-governador de Minas Gerais Eduardo Azeredo, ex-presidente do PSDB, foi condenado a 20 anos de prisão pelo mensalão tucano.
A força política mais robusta hoje no Congresso Nacional, o PMDB, tem representantes de peso envolvidos em denúncias de corrupção, como os presidentes da Câmara, Eduardo Cunha, e do Senado, Renan Calheiros, ambos citados por delatores da Operação Lava-Jato.
Poder econômico
Professor de Ciência Política da Universidade Federal de Pernambuco, Ernani Carvalho diz que o contexto atual reflete um modelo de sustentação política no qual o poder econômico tem protagonismo. "Muito tem a ver com as campanhas eleitorais, seja para arrecadar dinheiro seja na manutenção da fidelidade de parlamentares, que não está baseada nas alianças estratégicas de partidos e sim nos interesses de troca de cargos político, que é legítima, mas não desviando recursos públicos para pagar em espécie essas lideranças", diz.
O docente admite que o ônus maior vai ser arcado pelo PT ao se tornar símbolo da corrupção. No entanto, opina que outras legendas passam por crise de credibilidade. "É um momento bastante difícil, porque a gente vê que principais partidos que disputam a Presidência, em maior ou menor grau, têm envolvimento em corrupção", destaca.
Carvalho ressalta que o pessimismo com que o eleitorado enxerga a política deve inibir ascensão de novos líderes. "De forma geral, políticos perdem. Há ojeriza generalizada com relação a promessas dos políticos e partidos. Isso vai implicar numa dificuldade maior do surgimento de novas lideranças", prevê.
Apesar da descrença com partidos tradicionais, a ascensão de legendas menores com viés ideológico não é automática, acredita Ernani. "A sociedade tem que observar o comportamento desses partidos (nas eleições municipais). O PSOL é um partido de contestação, mas o que eles fariam se estivessem no poder?".
O sociólogo Osmar de Sá Ponte, professor da Universidade Federal do Ceará, declara que os escândalos que envolvem os partidos devem ser analisados de forma a extrapolar a questão partidária. "A corrupção está sendo tratada com viés muito político-partidária e acaba tendo um foco moral. A discussão fica na esfera de quem não exerceu de uma forma moral o seu mandato", diz. "A medida que a corrupção está generalizada, não é mais problema só moral, e sim ético".
Desmonte institucional
Osmar lembra que o impasse que é o fato de o País assistir a um desmonte institucional sem vislumbrar saídas democráticas para a crise de representação. "Nenhum governo construiu agenda para enfrentar essa crise, toda essa elite política de certa forma está numa situação constrangedora. Como não chegamos a um processo de solução para discutir uma proposta que cuide do resto de República que ainda existe, temos um contexto absolutamente inusitado, inédito".
O analista político alega não acreditar no fortalecimento de novas forças políticas a curto prazo pela desproporção que elas representam no Congresso Nacional. "A cúpula política deles é muito incipiente para pautar o Congresso e a sociedade com a agenda deles. São muito frágeis ainda. A curto prazo, a solução seria líderes da própria sociedade civil se organizarem e chamarem para si a responsabilidade de pressionar as elites políticas e lembrá-las que representam os interesses da sociedade", opina.
O cientista político Filomeno Moraes, da Universidade Estadual do Ceará, reforça que é necessário romper com o "modo arcaico" de fazer política. "Apesar dos pesares, não vejo a crise atual como danosa, embora seja traumática. Pelo contrário, creio mesmo que este momento de catarse tem possibilidades de encaminhar a democracia política brasileira para o futuro em que a dimensão republicana seja mais promissora", arrisca o docente.

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