O teatro é uma das mais antigas formas de expressão artística. Das arenas gregas, passando pelas feiras medievais até a consolidação da caixa cênica no palco italiano, a interação entre público e atores tem sido fundamental na construção de signos e significados durante séculos na sociedade ocidental.
No Brasil, o teatro de rua - apresentado em vias públicas, despido ou com mínimo de aparatos técnicos moduladores - segue como uma das principais formas da linguagem.
Isso se deve tanto pela facilidade de circulação dos espetáculos como pela baixa quantidade de teatros e equipamentos semelhantes no País. Das 5.570 cidades brasileiras, apenas 600 (quase todas capitais ou com população acima de um milhão de habitantes) possuem casas culturais, segunda a Fundação Nacional das Artes (Funarte).
Buscando construir políticas públicas para o setor, articuladores de vários estados chegaram ao Ceará no último dia 14, para participar, em Aquiraz e Fortaleza, do 17º Encontro da Rede Brasileira de Teatro de Rua. Iniciado neste sábado (14), o evento sege até quarta (18), com representantes em todas as unidades federativas. A decisão para o encontro, de caráter semestral, ser realizado no Ceará foi tomada em maio, durante a edição anterior, em Sorocaba.
"Sempre que terminamos um encontro já decidimos onde o próximo irá acontecer, buscando fazer um rodízio entre as regiões para que todos sejam contemplados", detalha o ator, diretor e articulador da rede no Rio de Janeiro Licko Turle.
"Escolhemos sempre o local em que as políticas públicas para as artes não estejam eficientes e, através da articulação do Teatro de Caretas (representante cearense na Rede), vimos que o Ceará precisava de um reforço de todos os nossos colaboradores", completa. Assim, cerca de 120 articuladores da rede, entre atores, diretores e dramaturgos, revezam-se para discutir, em assembleias fechadas em Aquiraz, a construção de políticas públicas voltadas ao teatro de rua.
Apresentações
Hoje, grupos convidados se apresentam, das 16h às 20h, em Fortaleza. Para marcar o início das atividades, os articuladores realizarão um cortejo partindo da Praça José de Alencar, passando pela Secult, na Praça do Ferreira, e chegando na Praça dos Leões onde acontecem os espetáculos ao ar livre.
Amanhã, a atividade se repete em Aquiraz, na Praça das Flores, entre 17h e 21h. "O primeiro ponto crucial é buscar a criação de fomentos específicos para a arte de rua com diferentes eixos, algo atualmente inexistente nos editais", diz Vanéssia Gomes, do Teatro de Caretas.
Criado há 17 anos em Fortaleza, o grupo, que realiza trabalho de teatro político, vislumbrou nos "palcos" ao ar livre a forma mais eficaz de alcançar seu público. "É uma maneira do artista trazer novas leituras e lógicas ao cotidiano das grandes cidades", defende Vanéssia.
Os encontros da Rede Brasileira de Teatro de Rua tem funcionado como forma de replicar políticas bem-sucedidas e oferecer apoio aos artistas dos locais onde é realizado.
"O articulador normalmente expõe o problema e os outros vão àquela cidade entender a conjuntura e discutir com as autoridades resoluções possíveis. Ações semelhantes já foram feitas em estados como Acre, São Paulo, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Mato Grosso e Paraíba", resume Licko.
Investimentos
Doutor em Artes Cênicas e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Unirio), Licko Turle, além de participar do encontro, vai lançar o livro "Teatro do Oprimido e Negritude" (E-Papers, 2014), após o cortejo marcado para hoje, na Praça dos Leões.
A teatróloga Mirtia Guimarães, do grupo Quem Tem Boca É Pra Gritar (PB), destaca que foi importante para a cidade de João Pessoa ter recebido uma edição do encontro em 2013. "A proposta é provocar o poder público, no estado que sedia o evento, sobre a necessidade de investir em teatro de rua", explica. "Pouquíssimas cidades têm leis ou editais específicos para a linguagem, só São Paulo, Rio e Porto Alegre", acrescenta lamentando não ter nada semelhante na região Nordeste.
O último dia do encontro, na quarta-feira (18), está reservado para a reunião final entre articuladores e membros da Secretaria de Cultura do Estado (Secult-CE) e da Fundação Nacional das Artes (Funarte)
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